{"id":104,"date":"2020-10-13T13:47:42","date_gmt":"2020-10-13T16:47:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.longevos.com.br\/mp\/?p=104"},"modified":"2020-10-28T16:27:52","modified_gmt":"2020-10-28T19:27:52","slug":"a-velhice-ocidental-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/10\/13\/a-velhice-ocidental-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"A velhice ocidental no S\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Eu nasci no meio do s\u00e9culo passado, quando as fam\u00edlias tinham estruturas r\u00edgidas e quase imut\u00e1veis. Nasci na \u00e9poca da solidez da sociedade. Tudo era feito para durar para sempre. Desde as panelas, at\u00e9 os matrim\u00f4nios. Todos se orgulhavam de possuir geladeiras que tinham a mesma idade que seus casamentos e ainda seguiam funcionando. As geladeiras e os casamentos, supostamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia em que fui criada, na Para\u00edba, nas d\u00e9cadas de 50\/60, deixou de ser modelo h\u00e1 muito tempo. \u00c0 \u00e9poca, era comum que fossem grandes &#8211; com pai, m\u00e3e, irm\u00e3os, av\u00f3s, tias e tios solteiros, primos, empregados; todos morando numa mesma casa, num arranjo interessante. Havia tamb\u00e9m os membros tempor\u00e1rios, as visitas que se demoravam meses e ao sair j\u00e1 eram quase parentes. A vizinhan\u00e7a, as escolas e outras fam\u00edlias eram uma esp\u00e9cie de anexo familiar sempre disposto a ajudar e interferir, sendo solicitado ou n\u00e3o. Aquela era a \u00e9poca das fam\u00edlias ampliadas onde prevalecia o sentimento do \u201cum por todos, todos por um\u201d. Todos envolvidos na tarefa de cuidar de todos, em especial, das crian\u00e7as e dos velhos. Isto quando havia algum idoso, porque ent\u00e3o eles n\u00e3o costumavam viver tanto quanto hoje. Os octogen\u00e1rios eram exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha fam\u00edlia, com ancestrais fixados em fazendas, foi a primeira a migrar do sert\u00e3o para o litoral. T\u00ednhamos uma casa sempre cheia, barulhenta, com um fog\u00e3o que nunca parava de cozinhar as in\u00fameras refei\u00e7\u00f5es que eram preparadas entre muita conversa. Ali\u00e1s, tudo se fazia em mutir\u00e3o.&nbsp; A vida dom\u00e9stica, a vida social, as alegrias das festas e as tristezas dos enterros. Todos sabiam tudo sobre todos. N\u00e3o havia segredos, n\u00e3o havia nada que escapasse \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o de um velado conselho familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A casa mais parecia uma pens\u00e3o.&nbsp; Ali\u00e1s, economia colaborativa nasceu ali. Tudo se trocava: tempo, hist\u00f3rias, roupas, livros, comida. \u00c9ramos como um cl\u00e3 onde a vida de cada um importava para todos e o esperado era que todos estivessem unidos para desfrutar das alegrias e enfrentar as adversidades. Todos se sentiam respons\u00e1veis pelos demais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu cresci neste modelo de fam\u00edlia, no entanto, quando chegou minha vez de fazer a minha, na d\u00e9cada de 70, o mundo era outro. Minha gera\u00e7\u00e3o, a dos baby boomers, os sessent\u00f5es de agora, viu, na vida adulta, esta fam\u00edlia se transformar num modelo nuclear, com m\u00e3e e pai ( \u00e0s vezes) e dois filhos, no m\u00e1ximo. A nova fam\u00edlia podia se reorganizar em torno de novos casamentos mas nunca voltando a ser um grande cl\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Admit\u00edamos que mesmo sendo poucos, n\u00f3s nos bast\u00e1vamos. \u00c9ramos jovens e dar\u00edamos conta sozinhos dos problemas. \u00c9ramos autossuficientes e, por fim,&nbsp; t\u00ednhamos conseguido algo in\u00e9dito at\u00e9 ent\u00e3o para as gera\u00e7\u00f5es anteriores: privacidade. Faz\u00edamos de tudo, numa vigil\u00e2ncia incessante, para manter fora da nossa intimidade parentes, amigos e vizinhos. A privacidade passou a ser um privil\u00e9gio conquistado.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora, quando estamos frente \u00e0 velhice que atingiu nossos pais e j\u00e1 nos ronda, precisamos entender como vamos cuidar deles e como nossos filhos v\u00e3o cuidar de n\u00f3s, neste mundo t\u00e3o transformado.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ser\u00e1 cuidar da velhice nestes tempos novos, sem o apoio do qual disp\u00fanhamos na solidez das grandes fam\u00edlias? Como ser\u00e1 manejar a efemeridade e a superficialidade, predominantes nas rela\u00e7\u00f5es de hoje, para desempenhar o papel de cuidador?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu vivi este drama. Na transi\u00e7\u00e3o deste modelo de fam\u00edlia ampliada para a contida, tudo me faltava para ser a filha encarregada de cuidar dos seus idosos. E tive que aprender cuidando \u00e0 dist\u00e2ncia. Fui errando e acertando, e descobrindo os mecanismos de recomposi\u00e7\u00e3o daqueles benef\u00edcios da fam\u00edlia de antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuidar de idosos neste novo contexto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil mas \u00e9 poss\u00edvel. Felizmente,&nbsp; h\u00e1 sa\u00eddas. \u00c9 preciso recriar a cultura de apoio ao cuidado com o idoso nos padr\u00f5es da coopera\u00e7\u00e3o de antigamente. Usando as ferramentas desta modernidade e tentando superar as dificuldades antigas com novas abordagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos nos inspirar no ditado que diz que \u00e9 preciso uma vila para criar uma crian\u00e7a. Pois \u00e9 preciso uma vila para cuidar de um idoso. Melhor dizendo, \u00e9 preciso uma rede de apoio. O ponto essencial na forma\u00e7\u00e3o desta rede \u00e9 a mudan\u00e7a do culto ao individualismo para o apre\u00e7o ao coletivo, da autonomia solit\u00e1ria, para a colabora\u00e7\u00e3o. Temos que aprender a valorizar a ajuda e&nbsp; ser ajudado. S\u00f3 uma rede ser\u00e1 capaz de produzir esta transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos construir nossa \u201cvila\u201d com parentes, vizinhos, amigos, profissionais de sa\u00fade, cuidadores profissionais, provedores de servi\u00e7os e produtos. Uma rede tecida com solidariedade, reaprendendo a compartilhar solu\u00e7\u00f5es, a dedicar tempo. A\u00e7\u00f5es apoiadas em colabora\u00e7\u00e3o com o objetivo de dar ao idoso que perdeu a autonomia, uma velhice com dignidade. Um jeito novo de cuidar, mais solid\u00e1rio, menos solit\u00e1rio. Devemos atuar num mundo onde a velhice seja acolhida e respeitada. Que idosos possam sensibilizar a sociedade com a mesma for\u00e7a que outros grupos, as crian\u00e7as, os refugiados, os sem teto, todos tendo em comum uma vulnerabilidade imensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuidemos dos nossos idosos para inspirarmos a juventude e os governos. Faz\u00ea-los entender que a velhice pertence a todos n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu nasci no meio do s\u00e9culo passado, quando as fam\u00edlias tinham estruturas r\u00edgidas e quase imut\u00e1veis. Nasci na \u00e9poca da solidez da sociedade. Tudo era feito para durar para sempre. Desde as panelas, at\u00e9 os matrim\u00f4nios. Todos se orgulhavam de possuir geladeiras que tinham a mesma idade que seus casamentos e ainda seguiam funcionando. As [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":418,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","spay_email":""},"categories":[1],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/2827a41b-bfd1-42e0-9d44-ebdd061a7c79.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104"}],"collection":[{"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=104"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":108,"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104\/revisions\/108"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/418"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=104"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}