{"id":115,"date":"2020-10-13T15:52:39","date_gmt":"2020-10-13T18:52:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.longevos.com.br\/mp\/?p=115"},"modified":"2021-01-19T12:20:10","modified_gmt":"2021-01-19T15:20:10","slug":"um-preconceito-sem-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/10\/13\/um-preconceito-sem-nome\/","title":{"rendered":"Um preconceito sem nome"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Se voc\u00ea acha complicado ser negro, mulher ou gay, experimente ser velho(a). Exibir rugas e demais sinais de uma vida iniciada h\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas, exige coragem e atitude.<\/p>\n\n\n\n<p>Desrespeito, deboche e impaci\u00eancia s\u00e3o constantes no cotidiano dos idosos. O mundo, especialmente o virtual, pode ser bem hostil. Quem frequenta as redes sociais, sabe da enxurrada de insultos a pessoas de idade que se atrevem a expressar suas opini\u00f5es. H\u00e1 sempre algu\u00e9m desqualificando-as sob a acusa\u00e7\u00e3o de senilidade. \u00c9 comum que ilustres an\u00f4nimos se sintam autorizados a chamar de senil, esclerosado, caduco pessoas com vasta folha de servi\u00e7os prestados \u00e0 sociedade. A experi\u00eancia e compet\u00eancia, acumuladas ao longo de anos de trabalho e estudo, s\u00e3o depreciadas por quem considera sua juventude o \u00fanico requisito para chancelar ideias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 impressionante a falta de cerim\u00f4nia com que muitos mandam se calar pessoas que deveriam ser escutadas. A alega\u00e7\u00e3o de que a velhice prejudica seu racioc\u00ednio \u00e9 sempre a arma para causar constrangimento e emudecer longevos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mesmas pessoas n\u00e3o se sentem t\u00e3o afoitas para usar desaforos que fa\u00e7am refer\u00eancia \u00e0 cor da pele, quando polemizam com um negro.  Pensam bem antes de expressar seu desapre\u00e7o pelos gays. Ou ironizar mulheres que reclamam de ass\u00e9dio, viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o salarial. N\u00e3o ousam extrapolar na grosseria, como fazem com idosos. <\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea tem mais de 60 anos, seus detratores come\u00e7am e encerram as discuss\u00f5es acusando-o(a) de \u201cvelho(a) gag\u00e1 \u201c. N\u00e3o importa qu\u00e3o qualificado voc\u00ea seja, sua opini\u00e3o pode ser invalidada com um definitivo: \u201cCala a boca, seu velho\u201d. Muitas vezes seguido de adjetivos mais contundentes como idiota, imbecil, decr\u00e9pito.<\/p>\n\n\n\n<p>O que faz com que o preconceito contra a idade seja exercido t\u00e3o despreocupado com o julgamento social? Seria a super valoriza\u00e7\u00e3o do vigor e beleza da juventude? A presun\u00e7\u00e3o de que a velhice impacta negativamente na vida dos outros? O custo social e econ\u00f4mico atrelado \u00e0 velhice?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 mais o que pensar. Vejamos os negros. Eles se unem, assumem sua negritude, reconhecem as causas dos seus problemas e exigem, reunidos em movimentos, que a sociedade n\u00e3o se exima de suas responsabilidades para mitigar as consequ\u00eancias do preconceito sofrido. Eles tomam para si a tarefa de lutar, se reconhecem como negros e sentem orgulho da sua luta. Mulheres e gays, idem. Eles d\u00e3o nome e cara ao preconceito que os diminuem, n\u00e3o pensam em deixar barato as agress\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00f3s, os velhos, que fazemos? Fingimos que n\u00e3o somos velhos. Somos os primeiros a abominar nossa condi\u00e7\u00e3o. Nosso lema \u00e9 \u201cvelho \u00e9 a m\u00e3e\u201d, \u201cvelhos s\u00e3o os outros\u201d. Odiamos a velhice, da mesma forma que o fazem nossos agressores.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos expurgados do mercado de trabalho mas fazemos vista grossa. Somos acusados de ser um peso para fam\u00edlia, onerosos para a sociedade e n\u00e3o nos mexemos para apontar fal\u00e1cias. Somos ridicularizados, socialmente, e seguimos fingindo que n\u00e3o entendemos. Escolhemos ignorar o preconceito, esperando o qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa maior amea\u00e7a vem de n\u00f3s mesmos, do nosso auto preconceito. Vamos seguir alvos de uma sociedade que n\u00e3o economiza crueldade conosco. Seremos incapazes de deixar, para os nossos filhos e netos, o legado do devido respeito \u00e0 velhice.<\/p>\n\n\n\n<p>Como nomeamos este preconceito?  H\u00e1 alguns termos: idadismo, gerontofobia. At\u00e9 ageismo, pedido emprestado \u00e0 l\u00edngua inglesa. H\u00e1 alguns e n\u00e3o h\u00e1 nenhum. Todos sabemos o significado de palavras como feminismo, machismo, homofobia mas no caso da velhice, cad\u00ea aquela palavra definitiva?<\/p>\n\n\n\n<p>Um preconceito sem nome, exercido at\u00e9 por suas v\u00edtimas, \u00e9 muito dif\u00edcil de ser combatido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea acha complicado ser negro, mulher ou gay, experimente ser velho(a). Exibir rugas e demais sinais de uma vida iniciada h\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas, exige coragem e atitude. Desrespeito, deboche e impaci\u00eancia s\u00e3o constantes no cotidiano dos idosos. O mundo, especialmente o virtual, pode ser bem hostil. 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