{"id":122,"date":"2020-10-13T16:51:09","date_gmt":"2020-10-13T19:51:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.longevos.com.br\/mp\/?p=122"},"modified":"2021-10-10T15:47:39","modified_gmt":"2021-10-10T18:47:39","slug":"a-dama-das-bolinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/10\/13\/a-dama-das-bolinhas\/","title":{"rendered":"A Dama das Bolinhas"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o entendo muito de arte mas sou curiosa e acho que cada um pode achar seu jeito de se deixar tocar por ela. Nesse universo de t\u00e9cnicas, materiais e estilos, nem sempre ao alcance da compreens\u00e3o de&nbsp; pobres mortais, j\u00e1 tive experi\u00eancias bem frustrantes. De frente a quadros famosos, me senti incapaz de traduzir a mensagem e era tomada de um desagrad\u00e1vel sentimento de ignor\u00e2ncia. Mas nunca me deixei abater e ia sempre em busca de obras que me proporcionassem emo\u00e7\u00f5es sem necessitar da raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A arte \u00e9 para todos, sempre acreditei.&nbsp; Vou a museus e deixo que as pe\u00e7as me fisguem. As cores, luzes, sombras, tra\u00e7os e cinzeladas s\u00e3o as respons\u00e1veis pela atra\u00e7\u00e3o. Uma vez seduzida, saio imediatamente bisbilhotando a vida do autor. Sou do tipo que precisa saber da vida dos artistas para apreciar sua obra. Preciso criar uma conex\u00e3o, ter a minha imagem do artista. Conhecer a hist\u00f3ria de vida do artista me permite ver sua obra com outros olhos. Sou dessas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho queda por artistas atormentados, com vida tr\u00e1gica, com hist\u00f3rias fortes, improv\u00e1veis. Com personalidades controvertidas, com desequil\u00edbrio entre talento e car\u00e1ter. Vou sabendo da pessoa e vou montando uma esp\u00e9cie de filme do quadro, com uma hist\u00f3ria servindo de legenda.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra de Yayoy Kusama me encantou \u00e0 primeira vista e sua hist\u00f3ria me fascinou mais ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Japonesa, nascida em mar\u00e7o de 1929 ( passando dos noventa, enquanto escrevo ), numa abastada fam\u00edlia ultra conservadora de uma cidade pequena, teve a inf\u00e2ncia marcada por um relacionamento complicado com a m\u00e3e que n\u00e3o aceitava seu gosto por pintar. Yayoy, desde muito cedo, tinha alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios. Este conturbado estado mental resultava numa necessidade de expressar seus transtornos em quadros, repletos de bolinhas. Se j\u00e1 era dif\u00edcil aceitar um filha fora dos padr\u00f5es, que anunciava n\u00e3o poder se enquadrar nas aspira\u00e7\u00f5es familiares de uma vida sensata dentro de um casamento seguro, imagine entender que seus quadros fossem arte. Sua m\u00e3e os rasgava e os considerava resultado dos frequentes surtos que acometiam Yayoy. Aos trancos e barrancos, entre a falta de apoio dos pais e uma esquizofrenia ainda n\u00e3o compreendida, ela foi se tornando artista. Numa \u00e9poca e pa\u00eds onde n\u00e3o era aceit\u00e1vel que as mulheres tivessem aspira\u00e7\u00f5es profissionais, ela  abriu seu caminho, \u00e0 custa de muita dor.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi para Nova York, na d\u00e9cada de 60, uma jovem nos seus trinta anos e l\u00e1 iniciou uma carreira, obtendo muito reconhecimento mas sofrendo muitas adversidades. Seu transtorno mental foi aumentando sua fragilidade emocional e a impossibilitou de superar experi\u00eancias traum\u00e1ticas como roubo e pl\u00e1gio de suas obras, por parte de artistas oportunistas. Depois de algumas tentativas de suic\u00eddio e alguma compreens\u00e3o do seu transtorno, voltou ao Jap\u00e3o.&nbsp; E, por vontade pr\u00f3pria, foi viver num hospital psiqui\u00e1trico, onde mora at\u00e9 hoje. Fez seu ateli\u00ea do outro lado da rua e durante d\u00e9cadas trabalhou exaustivamente, sem ser conhecida no seu pa\u00eds. Foi redescoberta, no final da d\u00e9cada de 80. Sua obra conquistou as mais famosas galerias e museus e, hoje, ela \u00e9 a artista de vanguarda mais vendida do mundo. Foi a primeira mulher a representar o Jap\u00e3o na bienal de Veneza. Ganhou honrarias do Imp\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Saber da hist\u00f3ria de Yayoy, do seu contexto familiar, da sua condi\u00e7\u00e3o mental, faz com que seus quadros, um espet\u00e1culo por si s\u00f3, nos pare\u00e7am mais fant\u00e1sticos ainda. Sua loucura, ou qualquer que seja o nome que se d\u00ea, faz com que quem estiver diante de uma pe\u00e7a de sua autoria seja impactado por muitas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se v\u00ea a extens\u00e3o da obra de Yayoy &#8211; ela ainda mant\u00e9m uma rotina di\u00e1ria de trabalho durante noites insones e dias de muitas horas &#8211; e sua atitude frente a um estado mental que deixaria qualquer um fora de combate, s\u00f3 sente crescer a admira\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a do seu trabalho. \u00c9 imposs\u00edvel olhar suas telas, esculturas e instala\u00e7\u00f5es, imensas tamb\u00e9m em tamanho f\u00edsico, e n\u00e3o se perguntar quem \u00e9 esta pessoa, que sentimentos t\u00e3o complexos forjam seu talento. A mulher \u00e9 uma explos\u00e3o de liberdade. \u00c9 um engano pensar que \u00e9 a loucura o que proporciona o vigor criativo. Segundo ela mesma, \u00e9 preciso n\u00e3o se deixar levar pelo desvario mas us\u00e1-lo para \u201cabrir caminhos para a criatividade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As bolinhas s\u00e3o as vogais da narrativa que imprime em todas as suas pe\u00e7as.&nbsp; H\u00e1 bolinhas em tudo e para tudo.&nbsp; O que podia facilmente ser monotem\u00e1tico \u00e9 maravilhosamente renov\u00e1vel em cada trabalho. Ela \u00e9 louca por bolinhas, ab\u00f3boras, flores gigantes, espelhos infinitos. \u00c9 magistral o que consegue fazer com sua louca paix\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o entendo muito de arte mas sou curiosa e acho que cada um pode achar seu jeito de se deixar tocar por ela. Nesse universo de t\u00e9cnicas, materiais e estilos, nem sempre ao alcance da compreens\u00e3o de&nbsp; pobres mortais, j\u00e1 tive experi\u00eancias bem frustrantes. 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