{"id":345,"date":"2020-07-11T07:29:00","date_gmt":"2020-07-11T10:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=345"},"modified":"2020-10-28T17:00:12","modified_gmt":"2020-10-28T20:00:12","slug":"sufocando-o-debate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/07\/11\/sufocando-o-debate\/","title":{"rendered":"Sufocando o Debate"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">A intoler\u00e2ncia a vis\u00f5es opostas, expressada sem nenhuma cerim\u00f4nia, nas redes sociais, desembocou no an\u00fancio recente da publica\u00e7\u00e3o de \u201cUma Carta sobre Justi\u00e7a e Debate Aberto\u201d, assinada por mais de 150 renomados escritores, jornalistas, ativistas. Os signat\u00e1rios alertam para a reiterada pr\u00e1tica de uma nova modalidade de censura que est\u00e1 sufocando o debate, reprimindo ideias e matando a liberdade de opinar.<\/p>\n\n\n\n<p>A diverg\u00eancia que antes era t\u00e3o apreciada por oferecer oportunidades de reflex\u00e3o, parece n\u00e3o ser mais bem vinda e, agora, assume ares de conflito. Os que veem suas ideias contestadas por opini\u00f5es contr\u00e1rias, se sentem atacados, no campo pessoal. A capacidade de separar a cr\u00edtica, tem se tornado rara. Reina uma exalta\u00e7\u00e3o, um tipo de \u201cpavio-curtismo\u201d que beira a grosseria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem acompanha este comportamento, se estarrece ante a constata\u00e7\u00e3o de que aqueles que se sentem atacados por opini\u00f5es diferentes das suas, tamb\u00e9m se sentem autorizados a exercer pap\u00e9is de censores. Hoje, facilmente, se instala um \u201ctribunal\u201d e julgamentos sum\u00e1rios s\u00e3o realizados. Vigora um gosto por julgar posi\u00e7\u00f5es opostas que pode acabar condenando ao ostracismo muitos profissionais respeitados. Um pequeno passo fora de um c\u00f3digo de conduta estabelecido, n\u00e3o se sabe bem por quem, pode custar a carreira de muita gente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O epis\u00f3dio recente que bem exemplifica o exerc\u00edcio dessa intransig\u00eancia, foi vivido por JK Rowling, autora da s\u00e9rie de Harry Potter. Uma escritora adorada por milh\u00f5es de leitores, aplaudida pela cr\u00edtica e louvada como um caso surpreendente de sucesso, no mundo dos fen\u00f4menos liter\u00e1rios, viu seus f\u00e3s se evaporarem, ap\u00f3s ser acusada de complac\u00eancia com a transfobia. A autora n\u00e3o escapou de um linchamento virtual que a fez sair em defesa do que ela chama de \u201cprinc\u00edpio fundamental de uma sociedade livre: a liberdade de pensar e opinar, num debate aberto, sobre o que se pensa\u201d. A carta foi alvo de desaprova\u00e7\u00e3o de outros tantos profissionais da escrita, ainda bem. Viva a controv\u00e9rsia. Mas o importante \u00e9 que o debate teve afrouxado o n\u00f3 que o estrangula.<\/p>\n\n\n\n<p>Os que aprovam o teor da Carta reclamam da reedi\u00e7\u00e3o da velha patrulha ideol\u00f3gica, que tanto azucrinou vidas, nas d\u00e9cadas passadas. S\u00f3 que agora ela pode ser potencializada de forma mais avassaladora, dado o contexto de alcance dos atuais meios de comunica\u00e7\u00e3o. A Internet, lamentavelmente, pode dar poderes ileg\u00edtimos aos aspirantes a censores.<\/p>\n\n\n\n<p>O clima de ca\u00e7a \u00e0s bruxas faz com que as opini\u00f5es sejam reprimidas. Muita gente que conquistou, com talento e esfor\u00e7o, seu espa\u00e7o de trabalho, p\u00f5e suas barbas de molho ao ver casos de livros sendo retirados do mercado, jornalistas emudecidos, escritores relegados ao desprezo, editoras reduzidas a p\u00f3. S\u00e3o variadas as v\u00edtimas das leis desta selva insana em que se transformou o mundo de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, acontece o mesmo no nosso mundinho de pessoas comuns. O efeito domin\u00f3 rebate nos c\u00edrculos informais dos grupos de aplicativos para bate-papo que re\u00fanem gente com algum interesse, parentesco, ou atividade em comum. No in\u00edcio, eles eram oportunidades fant\u00e1sticas de reencontro. Amigos e familiares afastados, geograficamente, ali puderam retomar seus la\u00e7os. Em grupos de trabalho, muita coisa p\u00f4de ser discutida e aprendida. Havia uma din\u00e2mica de se trazer novidades, compartilhar conhecimentos e novidades, propor discuss\u00f5es. Havia senso de humor, ironia e risadas. Era poss\u00edvel aprender com os discordantes e mudar de opini\u00e3o. Durante um tempo, foi \u00f3timo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que muitos se infectaram com o v\u00edrus da conformidade ideol\u00f3gica, com a praga das certezas de que seu receitu\u00e1rio moral era inegoci\u00e1vel, com a febre da arrog\u00e2ncia dos falsos s\u00e1bios. Os que n\u00e3o pensam como esses devem ser convencidos ou exterminados. Pessoas af\u00e1veis se transformaram em ferozes contendores, amigos delicados perderam a educa\u00e7\u00e3o em defesa de causas pol\u00edticas. Vozes interessantes se calaram com medo das pedradas dos med\u00edocres convencidos da sua profici\u00eancia e certos da sua autoridade em pautar o que pode ou n\u00e3o ser abordado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, morreram as conversas, a admira\u00e7\u00e3o, o respeito, as amizades. Os grupos servem apenas para os alegres memes motivacionais, textos de auto ajuda, para fotos que registram sucesso e felicidade. Os bons s\u00e3o separados dos maus, segundo sua op\u00e7\u00e3o religiosa, pol\u00edtica e outras mais. Quem se atreve a discordar s\u00f3 pode contar com uma brutal agressividade que cala qualquer tentativa de discuss\u00e3o consistente. Os grupos viraram agremia\u00e7\u00f5es, onde s\u00f3 fala e \u00e9 escutado quem pensa igual. Aos demais, resta a impress\u00e3o de que um \u201cbug\u201d no aplicativo faz com que suas postagens n\u00e3o sejam lidas. O famoso gelo das conversas presenciais transportado para o mundo virtual.<\/p>\n\n\n\n<p>Que algum movimento ressuscite, nos grupos que frequentamos, o gosto pelo debate aberto, franco, tolerante; com a predomin\u00e2ncia da humildade dos que sabem que n\u00e3o sabem tudo sobre qualquer coisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em><span class=\"has-inline-color has-accent-color\">Publicado no jornal  A UNI\u00c3O de  Jo\u00e3o Pessoa &#8211; PB, em  11 de julho de 2020<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A intoler\u00e2ncia a vis\u00f5es opostas, expressada sem nenhuma cerim\u00f4nia, nas redes sociais, desembocou no an\u00fancio recente da publica\u00e7\u00e3o de \u201cUma Carta sobre Justi\u00e7a e Debate Aberto\u201d, assinada por mais de 150 renomados escritores, jornalistas, ativistas. 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