{"id":444,"date":"2020-09-29T20:37:00","date_gmt":"2020-09-29T23:37:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=444"},"modified":"2020-10-29T21:56:58","modified_gmt":"2020-10-30T00:56:58","slug":"retrato-de-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/09\/29\/retrato-de-familia\/","title":{"rendered":"Retrato de fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"\n<p>Deixo meus sapatos ao lado da porta, aderindo \u00e0 moda oriental. Olho distra\u00edda para o tapete onde descansam outros pares e clique! No ch\u00e3o, vejo um \u00e1lbum de fam\u00edlia.&nbsp;Como \u00e9 que eu nunca tinha notado como os sapatos se parecem com seus donos?<\/p>\n\n\n\n<p>Descal\u00e7a, examino um surrado par de mocassins desordenados, solas gastas, denunciando o andar de passos fortes e barulhentos do meu marido. N\u00e3o \u00e9 para confundir a firmeza dessas pisadas com dureza de alma. Poucos t\u00eam a do\u00e7ura desse homem mas \u00e9 imposs\u00edvel pisar macio sendo t\u00e3o alto e tendo aqueles p\u00e9s de numera\u00e7\u00e3o exagerada. A suavidade subtra\u00edda ao caminhar migrou para as m\u00e3os e para o olhar. Seus sapatos s\u00e3o sempre pretos, para combinar com todas as suas roupas. Usa sempre um mesmo par e segue com ele at\u00e9 que a morte do coitado os separe. Aos amigos e amores, dedica a mesma fidelidade. Olho mais uma vez para os mocassins que jamais lhe compraria e penso como s\u00e3o a cara do meu marido: puro conforto e aconchego.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 as sand\u00e1lias de plataforma alta, super coloridas, com desenho ousado, uma tirinha partida, dizem tudo sobre minha exuberante filha. Uma mo\u00e7a segura de si, sem uma gota da minha timidez, ainda bem. Est\u00e3o ali seus inquietos 22 anos e a sede de botar o corpo mi\u00fado, bem nas alturas, junto dos sonhos. E muita rebeldia, essa sim, herdada de mim. Toda noite, depois que minha menina adormece, apago a luz do seu abajur e arrumo a bagun\u00e7a. H\u00e1 vezes em que tenho que despi-la das malditas sand\u00e1lias de extravagante mau gosto. H\u00e1 vezes, em que ganho um sorriso sonolento em troca do meu beijo pousado em sua testa. Com o cora\u00e7\u00e3o mole, penso que mal eu fiz para ter uma filha que se deita sem tirar os sapatos. No entanto, desconfio que viverei para v\u00ea-la em escarpins negros e saia justa.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu impetuoso filho de 18 anos, deixa nos t\u00eanis sujos e furados um recado.Vai lutar at\u00e9 a morte contra esse sistema maluco que faz pessoas bacanas como eu, perderem a no\u00e7\u00e3o dos valores e colecionarem sapatos. \u201cQue vergonha, m\u00e3e!\u201d Uma camiseta encardida, sem marca e com alguns furos, de vez em quando fica ali do lado, indiferente ao chul\u00e9, formando fileira na guerra do seu dono contra o capitalismo. Mas algo me diz, a julgar por suas namoradas, que ainda verei nesse tapete, um belo par de leg\u00edtimo cromo alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Acomodo minhas sapatilhas, entre seus parentes, e sou s\u00f3 carinho. Amanh\u00e3, n\u00e3o sei o que minha sapateira vai sugerir para cal\u00e7ar minhas fantasias mas estarei, outra vez, cheia de alegria compondo mais uma foto do meu \u00e1lbum de fam\u00edlia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Narrador: Eu L\u00edrico \ud83d\ude42<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Nota v\u00e1lida para todos os textos: nem sempre o que conto foi vivido. Uso e abuso do direito de fantasiar e inventar hist\u00f3rias.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deixo meus sapatos ao lado da porta, aderindo \u00e0 moda oriental. Olho distra\u00edda para o tapete onde descansam outros pares e clique! No ch\u00e3o, vejo um \u00e1lbum de fam\u00edlia.&nbsp;Como \u00e9 que eu nunca tinha notado como os sapatos se parecem com seus donos? 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