{"id":458,"date":"2020-09-18T21:33:00","date_gmt":"2020-09-19T00:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=458"},"modified":"2020-11-02T01:17:31","modified_gmt":"2020-11-02T04:17:31","slug":"baby-blues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/09\/18\/baby-blues\/","title":{"rendered":"Baby blues"},"content":{"rendered":"\n<p>A menina mal nasceu e meus peitos j\u00e1 viraram duas torneiras sem controle, dois incha\u00e7os recobertos de veias arroxeadas, jorrando um l\u00edquido branco azulado, f\u00e9tido. \u201cAmamentar \u00e9 bom. Dois anos \u00e9 o tempo certo\u201d. Uma ova! J\u00e1 se v\u00e3o dois meses e sei que n\u00e3o vou aguentar esta tortura. \u201cMenina, n\u00e3o diga isso, toda m\u00e3e gosta de dar mamar\u201d Quem disse que quero ser m\u00e3e? Fiquem sabendo: quero desistir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Choro de saudade de como eram lindos os meus peitos. Agora s\u00e3o mamas. As aur\u00e9olas pequenas e rosadas, um enorme hematoma. Que nojo! Que se dane o m\u00e9dico \u201c \u00e9 preciso cuidar para que as mamas n\u00e3o empedrem\u201d. Mamas?!! N\u00e3o quero ter mamas! Quero meus peitos de volta. Antes eram pura sedu\u00e7\u00e3o, agora horr\u00edveis bicos de mamadeira. Veias, muitas, saltadas e feias. Empedrada, estou eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Como chora esta menina! Come\u00e7a o choror\u00f4 e pronto, as veias arroxeadas s\u00e3o invadidas por um fluxo de alfinetes vindos sabe-se l\u00e1 de onde, rasgando a passagem para o que se diz leite. \u00c9 imediato! Berros, rio de espetos, pinga-pinga, bicos rachados em carne viva. E o cheiro, n\u00e1usea. Sinto raiva e solid\u00e3o. Choro muito e ainda \u00e9 pouco. Um choro sem escuta, sem dar conta de tanta tristeza. Meses deformada, apavorada sem ver sa\u00edda para a enrascada de parir e agora isto. Esta vida quase uma doen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cad\u00ea a salva\u00e7\u00e3o do amor materno? Nada. Balela. Amamentar \u00e9 s\u00f3 dor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Que raiva da hipocrisia das mulheres que engrossam o coro da alegria desta merda toda. Ningu\u00e9m pode ser feliz quando perde sua vida. Por que ningu\u00e9m me avisou que era assim? Odeio mais ainda as que dizem se sentir poderosas e lindas. Mentirosas. N\u00e3o s\u00e3o! S\u00e3o feias, disformes, s\u00f3 ser\u00e3o comidas, a partir de agora, por alguma tara dos homens. N\u00e3o s\u00e3o mais mulheres. S\u00e3o m\u00e3es. M\u00e3es de Facebook, falsas felizes. E a M\u00e3e Natureza? Outra sonsa. S\u00f3 cuida do seu plano. \u201cPronto, j\u00e1 pode morrer depois de alimentar a cria. S\u00f3 cuido da esp\u00e9cie. Quando tudo isto passar, nem voc\u00ea mesma vai mais gostar da pessoa que ficou em seu lugar, corpo horrendo, alma sem liberdade\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Meus olhos pingam mais que meus peitos. Rios de l\u00e1grimas pela perda de mim mesma e de tudo que adoro fazer. Nunca mais ler na cama ao acordar, nunca mais dan\u00e7ar at\u00e9 de madrugada, viajar sem destino, nunca mais o cora\u00e7\u00e3o livre de preocupa\u00e7\u00e3o, nunca mais sonos sem sobressaltos, nunca mais embriagu\u00eas de fumos e vinhos. Proibido! Estou de plant\u00e3o garantindo outra vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAlegre-se, querida\u201d Como?!! E a terr\u00edvel solid\u00e3o? Pesada e s\u00f3 minha. Eu, um ser insubstitu\u00edvel. N\u00e3o posso viver nem posso morrer. N\u00e3o posso ser mais de mim. N\u00e3o quero ser m\u00e3e, quero ser pai. Ou tia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m perdi meu homem, agora apenas um pai. Solid\u00e1rio, nunca mais companheiro. Nessa de ser m\u00e3e estou s\u00f3, s\u00f3, s\u00f3. E infeliz. Amamento e choro, por n\u00e3o ser mais eu. Decido que vou dar a esta filha o meu nome. Ela roubou minha vida, que fique tamb\u00e9m com meu nome.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto ela mama, eu bebo as l\u00e1grimas que escorrem pelo rosto dessa mulher que deixa de existir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A menina devia mamar as minhas l\u00e1grimas e me dar algum alento. N\u00e3o vejo nenhum azul, tudo \u00e9 sem cor.<\/p>\n\n\n\n<p>Narrador: Eu L\u00edrico \ud83d\ude42<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Nota v\u00e1lida para todos os textos: Uso e abuso do direito de fantasiar e inventar hist\u00f3rias.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A menina mal nasceu e meus peitos j\u00e1 viraram duas torneiras sem controle, dois incha\u00e7os recobertos de veias arroxeadas, jorrando um l\u00edquido branco azulado, f\u00e9tido. \u201cAmamentar \u00e9 bom. Dois anos \u00e9 o tempo certo\u201d. Uma ova! 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