{"id":465,"date":"2020-10-09T22:15:00","date_gmt":"2020-10-10T01:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=465"},"modified":"2020-10-29T14:29:28","modified_gmt":"2020-10-29T17:29:28","slug":"o-filho-da-viuva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/10\/09\/o-filho-da-viuva\/","title":{"rendered":"O filho da vi\u00fava"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Desentranhado da cr\u00f4nica Vi\u00fava na praia, de Rubem Braga ( Rio, setembro, 1958)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tivemos que matar meu pai quando ele nos deixou por outra mulher e foi morar n\u00e3o soubemos onde. Deixou um bilhete onde dizia apenas que n\u00e3o podia mais. S\u00f3 isso e uma assinatura sem beijos, numa caligrafia esquecida de mim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e me explicou que nos mudar\u00edamos tamb\u00e9m. Para a capital, levando uma nova hist\u00f3ria. Eu \u00f3rf\u00e3o, ela vi\u00fava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvi, petrificado, a crueldade do preconceito que ia roubar meu jeito de viver. Ela, fingindo n\u00e3o ligar, me contou que uma mulher largada do marido n\u00e3o teria nunca mais o respeito da sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Que os padres do col\u00e9gio inventariam notas baixas para convenc\u00ea-la a me tirar do nobre educand\u00e1rio. Logo eu, o menino com um boletim coalhado de 10.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00edamos mais convidados para nenhuma festa. Os velhos amigos iriam ser os novos ex-amigos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca mais eu iria ser anjinho da prociss\u00e3o, na festa da padroeira. Ia perder meu lugar de destaque no jeep, \u00e0 frente do andor. Minhas asinhas coladas nas costas n\u00e3o balan\u00e7ariam mais ao vento da minha ing\u00eanua f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Jamais o prefeito deixaria que eu recitasse, no coreto da pra\u00e7a, as poesias que as fadas me segredavam.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 as teclas do amado piano de Dona Mariquinha iriam me abandonar. Ela n\u00e3o dava aula a filho de mulher rejeitada por ter, certamente, feito algo de errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo escutado e nada entendido, ca\u00ed nos meus devaneios de sempre. Meu pai n\u00e3o gostava deles mas minha av\u00f3, essa sim defunta \u00e0 vera, adorava. \u201cSonhe muito, meu menino, voc\u00ea tem o dom de dar \u00e0s palavras vozes de estrelas\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a surpresa de que ir\u00edamos viver perto do mar, veio o cheiro da maresia, levando a saudade do\u00edda. Meu cora\u00e7\u00e3o, antes fel, agora era sol. Podia ver minha m\u00e3e, mais linda que nunca, me levando pela m\u00e3o para furar as ondas mansas e receber do mar a gra\u00e7a da orfandade. Seus cabelos soltos e um mai\u00f4 negro de luto, apertando sua cintura num abra\u00e7o, me deixavam no c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 me via na praia, nossas esperan\u00e7as encontrando o sorriso de um homem, sentado na areia, cigarro entre os dedos. Ele viu a vi\u00fava e reconheceu seu amor. Sentiu pena do falecido marido, l\u00e1 no al\u00e9m, triste com a precoce alegria da mulher, enciumado dos olhares \u00e1vidos que a tocavam. Mas ele n\u00e3o era o finado, ora bolas, e fez saber \u00e0 minha solid\u00e3o que seu fim havia chegado.<\/p>\n\n\n\n<p>O bom dos falsos mortos \u00e9 que n\u00e3o precisam de r\u00e9quiem. Deixamos a cidade hostil, antes do s\u00e9timo dia. Pelo canto do olho vi que minha m\u00e3e chorava, sem suspeitar do encontro com algu\u00e9m que s\u00f3 a deixaria quando morto de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu, o filho da vi\u00fava, olhei pela janela do carro e escolhi a nuvem mais bonita para esculpir a s\u00fabita vida.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Desentranhada da cr\u00f4nica Vi\u00fava na praia, de Rubem Braga ( Rio, setembro, 1958)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desentranhado da cr\u00f4nica Vi\u00fava na praia, de Rubem Braga ( Rio, setembro, 1958) Tivemos que matar meu pai quando ele nos deixou por outra mulher e foi morar n\u00e3o soubemos onde. Deixou um bilhete onde dizia apenas que n\u00e3o podia mais. 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