{"id":472,"date":"2020-10-14T23:12:00","date_gmt":"2020-10-15T02:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=472"},"modified":"2022-02-22T13:09:38","modified_gmt":"2022-02-22T16:09:38","slug":"o-castigo-de-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/10\/14\/o-castigo-de-escrever\/","title":{"rendered":"O castigo de escrever"},"content":{"rendered":"\n<p>Escreva 200 vezes \u201cN\u00e3o devo me comportar mal\u201d, dizia a caligrafia irretoc\u00e1vel, na nota registrando a puni\u00e7\u00e3o que meus pais deviam ter conhecimento. A letra n\u00e3o deixava d\u00favida quanto \u00e0 dureza da alma da sua dona. <\/p>\n\n\n\n<p>Eu tinha 10 anos. Sa\u00ed da sala com bochechas vermelhas de vergonha, garganta seca de raiva pela injusti\u00e7a sofrida e cora\u00e7\u00e3o acelerado pela preocupa\u00e7\u00e3o de ter que fazer meu pai pagar um caderno, com esse castigo. Eu n\u00e3o merecia ser punida por ter respondido, \u00e0 colega do lado, o resultado mais dif\u00edcil da tabuada de 9. Isso era amizade, n\u00e3o mau comportamento. E meu pai n\u00e3o merecia gastar seu parco sal\u00e1rio com pap\u00e9is para eu escrever inutilidades. <\/p>\n\n\n\n<p>Era comum, nos idos da d\u00e9cada de 60, as freiras fazerem isso. Abandonaram as palmat\u00f3rias e se sentiam muito generosas aplicando puni\u00e7\u00f5es, como essa, que julgavam leves. Eu voltava para casa no transporte escolar do col\u00e9gio, num trajeto que devia ser feito em absoluto sil\u00eancio e imobilidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Eu via as meninas de variadas turmas, com quem n\u00e3o podia conversar e, por isso, n\u00e3o sabia seus nomes. Mas sabia que no primeiro banco sempre estava aquela de olhos azuis \u201cn\u00e3o devo ficar em p\u00e9 com o \u00f4nibus em movimento &#8211; 100 vezes\u201d. A lourinha chorosa \u201cn\u00e3o devo vir ao col\u00e9gio com blusa amarrotada &#8211; 150 vezes\u201d. E uma bem chatinha de tran\u00e7as \u201cn\u00e3o devo botar a cabe\u00e7a para fora da janela &#8211; 300 vezes\u201d. Eu sentava sempre junto da freira encarregada de hipnotizar as 60 crian\u00e7as com seu olhar aterrorizador, cheio de promessas de mais penit\u00eancias, e pensava como eu gostaria de passar para ela um dever de casa \u201cN\u00e3o devo me vestir com roupa de santa quando na verdade sou um satan\u00e1s de saia -1500 vezes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois desse dia que reputo o de maior humilha\u00e7\u00e3o vivida por mim, nunca mais aceitei fazer as reda\u00e7\u00f5es exigidas. Esse maldito dia s\u00f3 perde para aquele quando, aos 12 anos de idade, ouvi do menino mais feio da vizinhan\u00e7a, um n\u00e3o como resposta ao meu pedido de namoro. Fui excelente aluna, tirava nota 10 em tudo e zero em Composi\u00e7\u00e3o e Escrita.  A m\u00e9dia me salvava e empurrava para os anos seguintes.  <\/p>\n\n\n\n<p>Eu ouvia a professora escrevendo no quadro o tema da reda\u00e7\u00e3o e, imediatamente, come\u00e7ava a mentalizar o que nunca iria para o papel pautado. L\u00e1, dentro da minha cabe\u00e7a, eu escrevia super bem, como mandavam as boas normas, com flu\u00eancia e estilo. Apagava, corrigia, encaixava sin\u00f4nimos bonitos. Caprichava nos textos, sempre deixando-os lindos e me desculpava por n\u00e3o deix\u00e1-los sair da pris\u00e3o.  <\/p>\n\n\n\n<p>Sei que minhas reda\u00e7\u00f5es eram lindas porque minha boa mem\u00f3ria tratava de decor\u00e1-las e assim que eu chegava em casa, repetia para a minha av\u00f3. Ela tamb\u00e9m fazia \u00f3timas reda\u00e7\u00f5es, num caderno que escondia do meu av\u00f4. Eu esperava ouvir seu ronco e toda noite lia suas reda\u00e7\u00f5es, sempre feitas para um tal de querido di\u00e1rio. Era isso o que meu av\u00f4 n\u00e3o podia saber, desse namorado da sua mulher. <\/p>\n\n\n\n<p>Minha av\u00f3 sempre aplaudia meu mon\u00f3logo, sem nunca recriminar minha recusa a escrever. Mas tamb\u00e9m sem nunca perguntar o porqu\u00ea disso. Dias depois do lan\u00e7amento do meu terceiro livro, me dei conta que era preciso pedir que ela me desvendasse esse mist\u00e9rio. Quando lembrei de perguntar o porqu\u00ea da sua n\u00e3o-pergunta, j\u00e1 era tarde demais. Um AVC chegou antes de mim e nunca mais minha av\u00f3 p\u00f4de conversar comigo. <\/p>\n\n\n\n<p>Restava ainda inquirir as freiras, as ditas mestras de classe. Por que educadoras fazem seus educandos pensarem que escrever \u00e9 um castigo? Por que nunca se interessaram em saber as causas de uma rebeldia?  <\/p>\n\n\n\n<p>Alguns estranham que eu dedique meus livros a elas, pessoas de quem devia guardar m\u00e1goas. Mas sei que acabou sendo bom ter represado tantas frases e esperado para escrev\u00ea-las depois de ter lavado minha alma com sofrimentos e injusti\u00e7as maiores. Para mim, o castigo maior n\u00e3o foi escrever aquelas revoltantes linhas de confiss\u00e3o de um crime n\u00e3o cometido. O pior mesmo, nos meus tempos de crian\u00e7a, foi n\u00e3o poder fazer como minha av\u00f3 e todo dia contar, a um amor misterioso, as alegrias e tristezas dos meus dias.  <\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Nota v\u00e1lida para todos os textos: nem sempre o que conto foi vivido. Uso e abuso do direito de fantasiar e inventar hist\u00f3rias.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escreva 200 vezes \u201cN\u00e3o devo me comportar mal\u201d, dizia a caligrafia irretoc\u00e1vel, na nota registrando a puni\u00e7\u00e3o que meus pais deviam ter conhecimento. A letra n\u00e3o deixava d\u00favida quanto \u00e0 dureza da alma da sua dona. Eu tinha 10 anos. 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