{"id":476,"date":"2020-10-13T14:13:00","date_gmt":"2020-10-13T17:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=476"},"modified":"2021-07-15T09:42:42","modified_gmt":"2021-07-15T12:42:42","slug":"os-meus-cariocas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/10\/13\/os-meus-cariocas\/","title":{"rendered":"Os meus cariocas"},"content":{"rendered":"\n<p>Foi uma peleja me acostumar com o jeito de ser do carioca, quando cheguei aqui, em 1989, vinda de Jo\u00e3o Pessoa. <\/p>\n\n\n\n<p>Estranhava demais os  \u201cbom dia\u201d  sem resposta no elevador, o inc\u00f4modo que as pessoas pareciam sentir com minha mania paraibana de puxar papo com desconhecidos, a falta de convites para um lanche de s\u00e1bado nas casas deles. <\/p>\n\n\n\n<p>Encrenquei que n\u00e3o gostassem que a gente fizesse carinho nas pernas dos seus beb\u00eas, que fosse falta grave perguntar a uma gr\u00e1vida se era menino ou menina, que achassem invasivo meu interesse sobre o maravilhoso perfume que estavam usando, que perguntar onde tinham comprado a roupa linda de morrer fosse visto como curiosidade inadequada e n\u00e3o como um elogio. <\/p>\n\n\n\n<p>Tudo que na minha terra era considerado um simp\u00e1tico interesse pelo outro, um pretexto para iniciar uma amizade, aqui era tido como falta de educa\u00e7\u00e3o. Tive que abandonar o jeito nordestino de pedir informa\u00e7\u00e3o tocando no ombro das pessoas. Perdoar  que n\u00e3o decorassem os nomes das minhas filhas e que chamassem de \u201cpara\u00edba\u201d tudo que achassem brega. <\/p>\n\n\n\n<p>Foram muitas as estranhezas. Senti muita diferen\u00e7a entre a cidade que eu adorava quando vinha a passeio e a que me recebeu para estudar na PUC. Passei muito tempo me adaptando. Reclamei muito de demonstrarem pouco interesse pelos outros, de gostarem mais de bicho do que de gente. De n\u00e3o serem af\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me conformava que sendo gente de riso t\u00e3o f\u00e1cil, uns  gozadores natos, prezassem tanto por manter  uma dist\u00e2ncia que me incomodava. Tamb\u00e9m n\u00e3o foi f\u00e1cil para minhas filhas de 7 e 5 anos. Quando eu me preocupava que, passados seis meses, ainda n\u00e3o tivessem feito amigos na escola, ouvia a explica\u00e7\u00e3o da minha ca\u00e7ula: &#8220;M\u00e3e, aqui os grupos s\u00e3o de 4. Tem que esperar algu\u00e9m morrer para entrar em algum&#8221;.  Mas o fato \u00e9 que elas deram o seu jeito e eu continuei bancando a antrop\u00f3loga que queria justificar o choque cultural pondo a culpa no outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Reclamei tanto que era dif\u00edcil fazer amizades que esqueci que aqui casei duas vezes e com dois cariocas.  Se era t\u00e3o dif\u00edcil achar amigos,  por que era t\u00e3o f\u00e1cil namorar e casar? Quando aprendi a entender o jeito como eles socializam, tudo se ajeitou.  <\/p>\n\n\n\n<p>Os meus cariocas s\u00e3o gente fin\u00edssima, educada, preocupada com o bem estar dos outros, alegres, cultos. N\u00e3o preciso nem nomin\u00e1-los. Eles sabem quem s\u00e3o e como gosto deles. Meus cariocas n\u00e3o tem nada a ver com uns e outros que ocupam os jornais com not\u00edcias ruins. <\/p>\n\n\n\n<p>Nesses dias de desesperan\u00e7a pol\u00edtica, o Brasil pode pensar que esses s\u00e3o a maioria. N\u00e3o s\u00e3o. Os meus s\u00f3 d\u00e3o \u00f3timas manchetes. Gente do bem e educada, com gosto por viver sem fazer mal ao mundo. Agrade\u00e7o por terem me feito perder o bairrismo, uma forma idiota de se sentir superior.<\/p>\n\n\n\n<p>Os meus cariocas s\u00e3o do caralho.<\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi uma peleja me acostumar com o jeito de ser do carioca, quando cheguei aqui, em 1989, vinda de Jo\u00e3o Pessoa. 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