{"id":491,"date":"2020-07-26T16:56:00","date_gmt":"2020-07-26T19:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=491"},"modified":"2020-10-30T21:24:28","modified_gmt":"2020-10-31T00:24:28","slug":"de-repente-tapioca-e-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/07\/26\/de-repente-tapioca-e-poesia\/","title":{"rendered":"De repente, tapioca \u00e9 poesia"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando cheguei no Rio, em 1989, o gl\u00faten ainda n\u00e3o tinha dado \u00e0 tapioca o status de comida funcional. Comer uma tapioquinha de c\u00f4co ou com manteiga, em alguma esquina da Zona Sul, nem pensar. O &#8220;podr\u00e3o&#8221; ( carrinho de cachorro quente, farto e barato) por sua vez dominava o mundo. As ferias livres tinham t\u00edmidas barraquinhas freq\u00fcentadas apenas por nordestinos que compravam a goma e voltavam para o aconchego das suas cozinhas. Eu me perguntava por que crepe fazia tanto sucesso e a tapioca seguia sem o apre\u00e7o dos locais. A\u00ed veio a moda do gl\u00faten free e ela agora reina soberana nos card\u00e1pios, ganhou est\u00f4magos e mentes. Eu que adoro uma pergunta, incorporo o sotaque baiano e penso: &#8216;D\u00e1 onde esse povo pensa que tapioca n\u00e3o engorda?!!&#8221; Mas fa\u00e7o boca de siri e deixo a danada viver seus de gl\u00f3ria at\u00e9 que uma dieta a defenestre das mesas magras. <\/p>\n\n\n\n<p>Engordando ou n\u00e3o, pouco importa para o nordestino. Para ele,  substitui o p\u00e3o \u00e0 altura. Sua vers\u00e3o ensopada em leite de c\u00f4co docinho pode muito bem passar por uma releitura gastron\u00f4mica de sobremesa. Algo como o caviar de quiabo, inventado por uma chefe sem medo de inovar. A tapioca merece respeito. Basta ver a hist\u00f3ria contada pelo marido esquecido.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Para Zefa, com medinho\n\n\nMinha mui\u00e9, jararaca, \u00e9 braba de arrepi\u00e1.\nMe mandou comprar a goma\nEsqueci de me alembr\u00e1.\n\nVortei pr\u00e1 feira tremendo,\nj\u00e1 ouvindo os desaforo,\nsentindo a lenha nos couro,\ncum medo de apanh\u00e1.\n\nPr\u00e1 cobra que \u00e9 minha Zefa, pode tudo se acab\u00e1\nMas a danada da goma\nEssa num pode fart\u00e1.\n\n\nPode findar o xam\u00eago,\nPode os cachorro mi\u00e1,\nPode preto virar galego,\nPode o fogo amorn\u00e1,\nPode o padre falar grego,\nPode os peixe avoar,\nAleijado pode andar e sol n\u00e3o alumiar\nMas tapioca, arre \u00e9gua!\nIsso num pode fart\u00e1.\n\nDesembestei l\u00e1 pra feira, xispei numa carreira s\u00f3\nOu um amigo me salva ou vou vir\u00e1 brocoi\u00f3\nCumpadi Chico de Tonha, voc\u00ea tem que me ajudar,\nse vorto sem esta goma, a Zefa vai me sangrar.\n\n- Calma, cumpadi, assossegue\nMui\u00e9 eu sei amansar\nLeve pra casa tr\u00eas quilo,\nchega prum jegue fartar.\nVigie bem que ela coma\ne vai do esbregue escapar.\n\nCom a bicha no bisaco, agora \u00e9 s\u00f3 cume\u00e7\u00e1.\nArrumar um alguid\u00e1, pra massa l\u00e1 ensopar\nEscorrer devagazinho e com gosto peneir\u00e1\nCatar tudo que \u00e9 cisquinho, cum pouco sal temperar\nCobrir cum pano limpinho, cuidando para num secar\nA ca\u00e7arola ariar, pra mul\u00e9sta num grudar\nEsquentar dos dois ladinho, mexendo pra arredondar\nPassar manteiga da terra, bem no meinho dobrar\nPegar um caf\u00e9 quentinho, ajuntar um bilhetinho,\nTudo isso bem feitinho\nPr\u00e1 cascavel agrad\u00e1.\n\nCom muita ajuda de Deus e Nossinh\u00f4 Jesuiscristo\nO meu cumpadi impatou que eu ficasse malquisto.\nSem minha Zefa n\u00e3o passo, sem minha Zefa eu num vivo\nEm nada eu vou achar gra\u00e7a e desse mundo desisto.<\/pre>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando cheguei no Rio, em 1989, o gl\u00faten ainda n\u00e3o tinha dado \u00e0 tapioca o status de comida funcional. 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