{"id":536,"date":"2020-07-02T11:48:00","date_gmt":"2020-07-02T14:48:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=536"},"modified":"2020-10-30T11:49:24","modified_gmt":"2020-10-30T14:49:24","slug":"escrita-sobre-a-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/07\/02\/escrita-sobre-a-escrita\/","title":{"rendered":"Escrita sobre a escrita"},"content":{"rendered":"\n<p>Por que escrevo? Melhor ainda, por que comecei t\u00e3o tarde? E por que publico?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu poderia&nbsp;inventar mil desculpas, fazer minhas as raz\u00f5es das cec\u00edlias e clarices. Elencar as mais emocionantes motiva\u00e7\u00f5es. Explicar, em versos, o fogo do impulso criativo. Mas, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevo apenas porque sou \u201cescrevedora\u201d e n\u00e3o escritora.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma escrevedora \u00e9 um bicho estranho, ref\u00e9m de medos e d\u00favidas, que s\u00f3 consegue sair do arm\u00e1rio depois dos 60 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um ser que viveu d\u00e9cadas na inseguran\u00e7a, sabendo n\u00e3o poder ser penetra na festa de quem escreve para valer. Sem passe para um restrito clube dos que ser\u00e3o premiados, dos que ter\u00e3o lugar de destaque numa vitrine de livraria prestigiada. Eu, por exemplo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Precisei de uma desculpa para ter coragem de publicar o primeiro livro. Mas n\u00e3o abri m\u00e3o de artimanhas. Deixei de lado os outros livros j\u00e1 paridos e escolhi o que tratava de um tema que amolecesse o cora\u00e7\u00e3o do leitor: cuidado com os idosos. Um assunto que perdoasse a petul\u00e2ncia da amadora. Tinha uma desculpa sempre \u00e0 m\u00e3o: \u201cAh, n\u00e3o sou escritora. Essas s\u00e3o apenas hist\u00f3rias que conto pra mim mesma. Pode ir l\u00e1 no meu blog ver se n\u00e3o \u00e9 assim\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tra\u00ed minha ironia e inventei um alter ego para enganar o leitor. Escrevo mas falo de coisas \u00fateis, era o sub texto. Covardia deplor\u00e1vel. Que escritor faria isso?<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 h\u00e1 pouco ousei \u201cescrivinhar\u201d na primeira pessoa. N\u00e3o achava que tivesse \u201clugar de escrita\u201d. Algu\u00e9m que passou a vida escrevendo relat\u00f3rios e monografias pode ousar falar sobre amor, raiva, tristeza, alegria? Uma voz me dizia: volte para os seus chav\u00f5es de ci\u00eancia, tecnologia, inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 recentemente descobri que fugia do encontro com o leitor. Passei a vida me entretendo com Matem\u00e1tica e Computa\u00e7\u00e3o ( ambas linguagens po\u00e9ticas, creiam), sem admitir que o que eu fazia era escrever. Demonstrei muito teorema transformando inc\u00f3gnitas em personagens. Cada programa que implementava folhas de pagamento, relat\u00f3rios estat\u00edsticos; era verdadeira poesia escrita em Cobol, Prolog e outras mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante anos, joguei fora tudo que escrevi. Folhas de papel, e depois arquivos, repletos de vis\u00e3o de mundo, paix\u00f5es, questionamentos. Tudo no lixo. Por que mesmo? Por achar que a escrita era privil\u00e9gio de g\u00eanios. Veio a internet e abriu espa\u00e7o para os pobres mortais. Vendo, hoje, o Jabuti criar as categorias de Romance Liter\u00e1rio e a de Entretenimento, penso no mundo que se abre.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevo porque sou enxerida, por gostar de dar pitaco, de criar pol\u00eamica, de ser do contra, de mentir e fantasiar. Porque o tempo dobrou minha vaidade e timidez. Escrevo para mim. Pacificada com a ideia de que desprezem minhas palavras. Escrevo sem m\u00e9todo: livros sem pref\u00e1cio, cr\u00f4nicas que estouram o limite de caracteres, textos que ignoram regras. Publico onde der, domando o inc\u00f4modo de que minha escrita possa n\u00e3o encontrar olhos que a apreciem. N\u00e3o anseio por leitores mas por escutadores de hist\u00f3ria, os que me fazem querer cont\u00e1-las cada vez melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cpor que?\u201d \u00e9 menos importante do que o \u201cpara que?\u201d Escrevo para ter assunto quando for preciso falar sozinha, para ficar a salvo da perda de mem\u00f3ria; para ter passado, presente e futuro. Para me sentir bem contando coisas que vivi, ouvi ou inventei.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que escrevo? Melhor ainda, por que comecei t\u00e3o tarde? E por que publico? Eu poderia&nbsp;inventar mil desculpas, fazer minhas as raz\u00f5es das cec\u00edlias e clarices. Elencar as mais emocionantes motiva\u00e7\u00f5es. Explicar, em versos, o fogo do impulso criativo. 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