{"id":594,"date":"2020-08-27T17:36:00","date_gmt":"2020-08-27T20:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=594"},"modified":"2020-11-01T17:39:58","modified_gmt":"2020-11-01T20:39:58","slug":"estabanada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/08\/27\/estabanada\/","title":{"rendered":"Estabanada"},"content":{"rendered":"\n<p> Sacudo minha m\u00e3o, com toda leveza e a lente de contato que estava na ponta do dedo foi parar em local ignorado. Sei que deve estar por perto mas sua transpar\u00eancia faz imposs\u00edvel localiz\u00e1-la. Arrisco que pode ter grudado na porta, saio tateando e vem a decep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era nada. Este \u00e9 o momento em que bate a vontade de me bater. Um pequeno desastre que se repete h\u00e1 anos, a despeito da minha promessa de que nunca mais vai acontecer. <\/p>\n\n\n\n<p>Corro para comprar as substitutas e trope\u00e7o no fio da extens\u00e3o que acomoda as tomadas do notebook, TV e m\u00e1quina de caf\u00e9. Penso na met\u00e1fora da caneca meio cheia e me reconhe\u00e7o. Meu otimismo acha que o computador vai resistir ao tsunami da cafe\u00edna. N\u00e3o resistiu. Vou comprar pelo celular. <\/p>\n\n\n\n<p>Respiro fundo, me acomodo na cadeira, levanto com coluna ereta e \u201ccrecs\u201d, um estalido me gela a alma. O celular caiu de cara no ch\u00e3o e a tela virou um imenso asterisco que zomba do meu mau jeito e me impede de ver a agenda. Ainda bem que n\u00e3o fiquei com torcicolo ao me abaixar para socorrer o coitado. Epa, a coitada aqui, sou eu. <\/p>\n\n\n\n<p>Com olhos marejados, lembro que esqueci os \u00f3culos no escrit\u00f3rio e penso por que estou sempre esquecendo de lembrar. Remoo a situa\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel em que me encontro: cega e sem perd\u00e3o para tanto estabanamento. <\/p>\n\n\n\n<p>Esqueci da cegueira, por um momento, e vi minha m\u00e3e reclamando. \u201cMenina, vou te matricular  num curso de gueixas para ver se um milagre cultural deixa teus movimentos elegantes\u201d. A calma inabal\u00e1vel da minha m\u00e3e n\u00e3o tinha momentos de folga com meu desmantelo. <\/p>\n\n\n\n<p>Sou estabanada, desastrada, desatenta, desde sempre. Mas n\u00e3o sou daquelas conformadas com a trag\u00e9dia. Sofro, me irrito com as consequ\u00eancias, busco ajuda. J\u00e1 fiz terapia comportamental, fui a pai-de-santo, subi escadarias de santu\u00e1rios nos quatro cantos do mundo. Onde, ali\u00e1s,  tamb\u00e9m j\u00e1 deixei passaporte, malas, compras imperd\u00edveis. Fiz promessa antecipada \u00e0 Santa Rita, a das causa imposs\u00edveis, em Cassia, na Perugia. E nada aconteceu. Penso que o juramento de voltar \u00e0 cidade, a cada dois anos, n\u00e3o foi considerada um sacrif\u00edcio e a santa me ignorou. Pressentiu que o famoso chocolate , e n\u00e3o o compromisso, era o verdadeiro motivo a me fazer voltar \u00e0 sua igreja . <\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que perco e esque\u00e7o coisas como se seguisse ordens demon\u00edacas. Nos \u00ednterins, derramo copos d&#8217;\u00e1gua, dou cotoveladas nos pratos dos meus vizinho de mesa, gasto o dobro da gasolina errando caminhos. Tenho trios de roupas de mesmo modelo e cor porque, a cada encontro numa vitrine, penso que \u00e9 primeira vez que gostei da pe\u00e7a. Perco amizades, tempo e dinheiro. Quem me acompanha se diverte, eu s\u00f3 sofro. <\/p>\n\n\n\n<p>Desconfio que meus pais aceitaram participar de algum experimento de manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e toparam ter uma filha cobaia. Fui feita para a ci\u00eancia observar e entender como algu\u00e9m t\u00e3o distra\u00eddo e destrambelhado sobrevive \u00e0 vida em sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sacudo minha m\u00e3o, com toda leveza e a lente de contato que estava na ponta do dedo foi parar em local ignorado. Sei que deve estar por perto mas sua transpar\u00eancia faz imposs\u00edvel localiz\u00e1-la. Arrisco que pode ter grudado na porta, saio tateando e vem a decep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era nada. 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