{"id":817,"date":"2022-09-01T18:52:46","date_gmt":"2022-09-01T21:52:46","guid":{"rendered":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/?p=817"},"modified":"2022-09-01T18:52:49","modified_gmt":"2022-09-01T21:52:49","slug":"o-melhor-do-casamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2022\/09\/01\/o-melhor-do-casamento\/","title":{"rendered":"O melhor do casamento"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O melhor do casamento \u00e9 a viuvez, acreditem em mim. N\u00e3o o div\u00f3rcio ou uma separa\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel, nada disso. Viuvez, pura e simples. Uma sa\u00edda perfeita e elegante, se certos requisitos forem atendidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliz da mulher que casa com algu\u00e9m que tem o bom gosto de morrer na hora certa, finalizando um acordo descuidado, feito quando se estava apaixonada e, portanto, desatenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Toda mulher merece uma boa viuvez.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda mulher merece um desfecho quando ainda tem fogo para viver novos namoros, sendo agraciada com uma boa pens\u00e3o ou com um bom patrim\u00f4nio, para ser desfrutado ao bel prazer da fingida enlutada. Resumindo, o falecido deve sair de cena deixando um lastro financeiro, enquanto a consorte \u2013 que palavra mais que adequada &#8211; ainda \u00e9 jovem e com horm\u00f4nios em alta.<\/p>\n\n\n\n<p>Passei muito tempo invejando uma amiga que passou por todos os estados civis e situa\u00e7\u00f5es que s\u00f3 uma mulher bonita e gostosa tem a seu dispor: foi casada, desquitada, divorciada, amasiada, concubina, ad\u00faltera. Uma felizarda. Mas fui eu quem acabou tirando a sorte grande, fui dormir pensando em suic\u00eddio e acordei vi\u00fava!<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, a pessoa boa e generosa que sempre fui, teve sua recompensa. O intoler\u00e1vel do meu marido acordou roncando, com um infarto em curso e teve a morte dos tolos. Nervoso, reclamava da demora da ambul\u00e2ncia e quando se deu conta que eu, sua diligente mulher, n\u00e3o tinha sequer avisado seu cardiologista, morreu com muita emo\u00e7\u00e3o cravada no cora\u00e7\u00e3o defeituoso: incredulidade, revolta, sede de vingan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fui pega de surpresa, eu n\u00e3o tinha um sonho, tinha um projeto, com tudo bem planejado. Fui para a crema\u00e7\u00e3o, gloriosamente vestida de preto, com j\u00f3ias de platina e um v\u00e9u negro, transparente sobre o rosto. Realizei a t\u00e3o acalentada fantasia de ritualizar minha viuvez vestida de Jacqueline Kennedy. Como \u00e9 bom dar vida a quimeras.<\/p>\n\n\n\n<p>Desempenhei meu papel com a eleg\u00e2ncia das ricas, sem lamenta\u00e7\u00f5es em voz alta mas dando um jeito de que os presentes pudessem me ouvir dizendo, num tom apropriado e entre contidos solu\u00e7os, que o falecido teve comigo um cuidado amoroso at\u00e9 o fim. \u201cN\u00e3o se foi sem antes sussurrar, carinhosamente ao meu ouvido, sua \u00faltima provid\u00eancia para me desentristecer: que eu fosse jogar metade das suas cinzas na Costa Amalfitana e a outra metade, nos fiordes da Finl\u00e2ndia\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Logo depois da missa de s\u00e9timo dia, cumpri o desejado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que ser vi\u00fava exige suporte psicol\u00f3gico, ainda mais quando \u00e9 preciso trabalhar a tristeza de n\u00e3o ter provido socorro a tempo. Importante lembrar que casei apaixonada e que o sapo que acabou por amargar dois ter\u00e7os da minha vida, um dia foi pr\u00edncipe. Depois de tanta tristeza tive que ficar fazendo sess\u00f5es di\u00e1rias de terapia, com meu analista, em Paris. Ainda bem que ele tinha me aconselhado a comprar um ap no Troisi\u00e8me, o bairro que sempre me encantou. Quando ele me dizia que eu precisava ter meu&nbsp;<em>studi\u00f4<\/em>&nbsp;( fazendo biquinho para caprichar na pron\u00fancia ) eu n\u00e3o podia mais responder por mim mesma de t\u00e3o emocionada com seu charme. Ou \u00e9lan, como preferia dizer meu salvador freudiano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, depois de tr\u00eas meses, eu me senti forte para partir em busca da independ\u00eancia emocional, viajando por 15 pa\u00edses, durante um ano inteiro. Voltei mais despachada que a Madonna.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gostei e contratei, a peso de ouro, sess\u00f5es de terapia tr\u00eas vezes ao dia, por tempo indeterminado, com mais um psicanalista. Dois deles era um bom jeito de se conseguir resultados a curto prazo. Esse segundo, um lacaniano moreno de olhos azuis. Um homem sens\u00edvel e disposto a ouvir com aten\u00e7\u00e3o silenciosa e ininterrupta. Depois de um tempo, aconteceu uma transfer\u00eancia ao contr\u00e1rio e ele ficou depende de mim. A\u00ed pude entender o prazer do meu marido em me ver completamente dependente dele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, antes de dormir, agrade\u00e7o a Deus a sorte de ter casado com um homem t\u00e3o bom. S\u00f3 casamentos especiais podem ter o final feliz de uma boa viuvez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O melhor do casamento \u00e9 a viuvez, acreditem em mim. N\u00e3o o div\u00f3rcio ou uma separa\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel, nada disso. Viuvez, pura e simples. Uma sa\u00edda perfeita e elegante, se certos requisitos forem atendidos. 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