{"id":88,"date":"2020-10-27T19:32:00","date_gmt":"2020-10-27T22:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.longevos.com.br\/mp\/?p=88"},"modified":"2020-10-29T21:47:05","modified_gmt":"2020-10-30T00:47:05","slug":"cartao-jirimum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/martapessoa.blog.br\/index.php\/2020\/10\/27\/cartao-jirimum\/","title":{"rendered":"Cart\u00e3o Jerimum"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">O isolamento imposto pela pandemia lhe deu ideia de mudar para uma cidade pequena? Pensou na maravilhosa Jo\u00e3o Pessoa? Pois saiba que o fluxo migrat\u00f3rio para l\u00e1 \u00e9 grande e, em breve, ser\u00e1 necess\u00e1rio obter o Cart\u00e3o Jerimum para ir viver naquele quase para\u00edso. O procedimento de obten\u00e7\u00e3o se baseia no do Green Card americano e, portanto, ser\u00e1 preciso dominar o linguajar local. Comece a ler alguns textos para ir se inteirando e conhecendo o povo. Precisando de ajuda com a tradu\u00e7\u00e3o, v\u00e1 pra baixa da \u00e9gua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\"><strong>A novela do r\u00e1dio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Cum\u00e1di, escute s\u00f3 o leriado que foi a novela do meu r\u00e1idim quebrado. Sost\u00f4, eu, toda cheia de bondade, toda lorde, ir pirangar servi\u00e7o daquele coisado desenxabido que ficou de endireitar o bichinho. Um miser\u00e1vi que s\u00f3 queria me engabelar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Depois de uma ruma de dias de ma\u00e7ada, eu me abofelei e fui l\u00e1 tirar a limpo. Embioquei na loja do infeliz das costa z\u00f4ca e estatelei: uma alcatifa mal-amanhada, um bir\u00f4 esborrotando de papel e umas caneca de aluminho tudo por ariar. Pelo chiqueiro de porco, dei logo f\u00e9 que o caba era um contador de g\u00f3ga, um labrogeiro de marca maior. Dali n\u00e3o ia sair nada que prestasse, tava se vendo. Mas quem \u00e9 burro pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue. Fiquei e foi um n\u00f3 cego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Fui atr\u00e1s dele, antes do sereno chegar, escambixada com a luta da buchada que eu tava preparando para a festa de Santana e distinhorada pela falta da cantoria penosa que escuto no meu raidinho, todo dia que Deus d\u00e1. E eu empalhada ali, levando uma ma\u00e7ada da bexiga, de endoidecer qualquer crist\u00e3o avexado. Ele pegou num ginitiado, num puxa-inc\u00f3i do estop\u00f4-balai e nada sa\u00eda. Enturido,  que s\u00f3 um poico mijando, n\u00e3o falava nada. Eu s\u00f3 cubando o caqueado do infit\u00e9ti. Me abolotei numa cadeira cheirando a cachorro molhado e de l\u00e1 nenhum daqueles bigodetes ia me tirar. Num ia arredar dali nem a poder de catimb\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">O fi da peste, pra dentro e pra fora, achichelando os chinelos, escangotando a camisa e eu me segurando para n\u00e3o esfregar o focinho dele no chapiscado da parede. Maginei at\u00e9 enfiar o quengo nos buracos do combong\u00f3 mas NossinhoradoDesterro me empatou.Fiquei ali, sem me bulir, esturricada de sede, sem coragi pra tomar nem um g\u00f3ipe d\u2019\u00e1gua. Nem a pulso eu ia beber naquele copo seboso. Tamb\u00e9m n\u00e3o ia adiantar pedir. Com o budejado e a latumia dos fregu\u00eas, tudo reclamando, eu ia esbilitar e ningu\u00e9m ia dar f\u00e9 de mim. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">O mulestado se fez de m\u00f4co quando eu disse que dernantonti fazia umas telefonema e s\u00f3 ouvia calado como resposta. O peste quis me engabelar com a hist\u00f3ria de trancoso de que um menino j\u00e1 tinha ido ver o que era meu. Foi me dando um farnisim, uma gastura, cresci os mocot\u00f3, arreganhei as venta e assuntei: esse bixiguento foi desencavar essa pin\u00f3ia onde? Na casa da m\u00e3e de pantanha?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Uma bruaca pensando que era gente e n\u00e3o secret\u00e1ria, se meteu no mei. Sungou o decote escachelado, aboticou os \u00f3i e soltou a voz de rajada de taquara rachada pedindo que eu assossegasse. Rebolei a escacela onde eu guardava os recibo mesmo no meio da titela daquela emzambuada, arrequeri Z\u00e9 Pelintra e avisei que dava meia hora para aparecer meu raidim, quebrado ou inteiro. Se n\u00e3o aparecer vou quebrar dente e chapa de quem tiver nessa tapera que eles chamam de assiten\u00e7a t\u00e9nica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Um quizilento, mago que nem soc\u00f3, veio conversar miolo de quartinha pra minha banda e mandei logo ele se intrometer na vida da rafameia dele. Como de besta, eu s\u00f3 tenho os olhos de macaco, me virei num dindim e dei a \u00faltima cartada: essa briga de rapariga se finda se me pagarem umas apragata nova. Deu certo que s\u00f3 dedo em venta. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Recebi o dinheiro e desembestei pra fora, pensando que o raidim ia me adesculpar. Ele tava j\u00e1 caducando mesmo, intrigado com as esta\u00e7\u00e3o, t\u00e3o velho que ia chegar a hora de s\u00f3 pegar quizila. Me danei pra longe daquela mundi\u00e7a que pensava que ia me dar r\u00f4d\u00eate e fazer cabrueraje comigo. Esparrela dessa, nunca mais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\">Mas se me der na ven\u00eata, vou atentar aquelas praga daquela loja anarquisada, at\u00e9 ter de volta meu raidim. Num posso esquecer como ele acendia as luz de alegria quando me via. Sou mul\u00e9 de amor sincero.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O isolamento imposto pela pandemia lhe deu ideia de mudar para uma cidade pequena? Pensou na maravilhosa Jo\u00e3o Pessoa? Pois saiba que o fluxo migrat\u00f3rio para l\u00e1 \u00e9 grande e, em breve, ser\u00e1 necess\u00e1rio obter o Cart\u00e3o Jerimum para ir viver naquele quase para\u00edso. 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