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Se Seu Mandurim fosse vivo

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Não sei se Seu Mandurim, o sertanejo mais irritado do mundo, existiu mesmo ou é uma lenda. Os que garantem tê-lo conhecido contam que ele tinha horror a obviedades, falta de inteligência e artificialidades. Não tolerava perguntas ou comentários bobos.  autor de épicas respostas ácidas, destinadas a interlocutores cujo comportamento acendiam o pavio curto da sua impaciência. Seu mau gênio ganhou fama, virou piada e inspirou muitas histórias. 

Se vivo ele ainda fosse, teria sido impossível frequentar uma rede social, um grupo de whatsapp. Estaria fora de cogitação conviver com alguns dos seres que habitam esses espaços. Alguém enfezado como ele, ia ter motivos de sobra para muita exasperação e desaforos. E a gente bem sabe que não é preciso ser nenhum Seu Mandurim para se perder a paciência com o povo dos whatsapps e facebooks da vida. 

Fantasiando sobre o improvável cenário, dá para imaginar que dicas ele daria para quem quisesse angariar a antipatia das pessoas, impedir que um coleguismo virasse amizade e ser, sumariamente, “bloqueado” no mundo virtual e real, por amigos tidos como verdadeiros. 

Siga os conselhos abaixo e vire um Mandurim moderno.

1 – Corrija, sempre, os erros de Português dos seus “amigos”. Ataque sem piedade aqueles vacilos que, claramente, não são erros de digitação. Cobre respeito à gramática.

2 – Reclame sempre que uma notícia fake for repassada. Diga, nas entrelinhas, que só alguém muito “sem noção” não vê que aquela notícia é mais falsa que elogio de ex.

3 – Peça para não mandarem gif de “bom dia”, “bom meio dia”, “boa meia tarde”, “boa noite” e “bom sono”, todo santo dia. 

4 – Diga para pensarem 20 segundos antes de repassar coisas que já circulam nas redes sociais. Mil pessoas já fizeram isto, minutos antes. Tente eliminar o repórter que existe em seu amigo e aguarde as consequências.

5 – Faça críticas. Todas elas serão consideradas destrutivas e você, uma pessoa pessimista e tóxica. No mundo de hoje, não há lugar para crítica. Ser amigo, é abdicar da sinceridade.

6 – Não hesite em confrontar opiniões fanáticas sobre política, religião.  Polemize, questione e veja como os amigos serão pródigos em insultos. Exija coerência e lógica. Pergunte se a fonte é confiável. Dê os pitacos óbvios que ninguém se atreve a dar e o troféu de chato desagradável, será seu. 

7 – Não curta a documentação fotográfica que reflete vaidade tola ou que reforça a imagem distorcida que o amigo tem de si mesmo e da sua realidade. Se você não comentar com elogios, coraçõezinhos, palmas, florzinhas, ficará patente que sua insensibilidade pode ser inveja e não apenas uma recusa a mentir para afagar egos já muito inflados. 

8 – Seja irônico e debochado, ignorando que essas características, antes tidas como sinal de presença de espírito, perderam o prestígio. Não seja fofo e espere para ver. Quem danado vai gostar de alguém com franqueza tão rude?

9 – Peça ao seu amigo que conhece todo mundo para só noticiar cirurgias, acidentes e morte dos parentes em primeiro grau. Há grupos que viram obituário de gente desconhecida para a maioria dos seus integrantes.

10 – Reclame daqueles posts enigmáticos, com indiretas que só “os entendedores entenderão”. Há quem se especialize em avisar que estão tristes, alegres, decepcionados e esperam que a humanidade pergunte por que. Quem lê fica lustrando a bola de cristal sem obter nenhuma pista. 

Se preferir ignorar as dicas acima e optar por se comportar do mesmo jeitinho que você condena nos amigos – exibido, fantasioso, ególatra, refratário a opiniões divergentes, paranoico – tenha a certeza de que ninguém vai aturá-lo. 

Uma forma de vingança válida e divertida. Salve, Seu Mandurim.

Publicado no jornal A UNIÃO de João Pessoa – PB, em 18 de agosto de 2020